terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Homenagem a Saramago

Discurso na Academia Sueca (ao receber o Prêmio Nobel de Literatura)

O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever. As quatro da madrugada, quando a promessa de um novo dia ainda vinha em terras de França, levantava-se da enxerga e saía para o campo, levando ao pasto a meia dúzia de porcas de cuja fertilidade se alimentavam ele e a mulher. Viviam desta escassez os meus avós maternos, da pequena criação de porcos que, depois do desmame, eram vendidos aos vizinhos da aldeia. Azinhaga de seu nome, na província do Ribatejo.

Chamavam-se Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha esses avós, e eram analfabetos um e outro. No Inverno, quando o frio da noite apertava ao ponto de a água dos cântaros gelar dentro da casa, iam buscar às pocilgas os bácoros mais débeis e levavam-nos para a sua cama. Debaixo das mantas grosseiras, o calor dos humanos livrava os animaizinhos do enregelamento e salvava-os de uma morte certa. Ainda que fossem gente de bom caráter, não era por primores de alma compassiva que os dois velhos assim procediam: o que os preocupava, sem sentimentalismos nem retóricas, era proteger o seu ganha-pão, com a naturalidade de quem, para manter a vida, não aprendeu a pensar mais do que o indispensável.

Ajudei muitas vezes este meu avô Jerónimo nas suas andanças de pastor, cavei muitas vezes a terra do quintal anexo à casa e cortei lenha para o lume, muitas vezes, dando voltas e voltas à grande roda de ferro que acionava a bomba, fiz subir a água do poço comunitário e a transportei ao ombro, muitas vezes, às escondidas dos guardas das searas, fui com a minha avó, também pela madrugada, munidos de ancinho, panal e corda, a recolher nos restolhos a palha solta que depois haveria de servir para a cama do gado. E algumas vezes, em noites quentes de Verão, depois da ceia, meu avô me disse: “José, hoje vamos dormir os dois debaixo da figueira”. Havia outras duas figueiras, mas aquela, certamente por ser a maior, por ser a mais antiga, por ser a de sempre, era, para toda as pessoas da casa, a figueira.

Mais ou menos por antonomásia, palavra erudita que só muitos anos depois viria a conhecer e a saber o que significava… No meio da paz noturna, entre os ramos altos da árvore, uma estrela aparecia-me, e depois, lentamente, escondia-se por trás de uma folha, e, olhando eu noutra direção, tal como um rio correndo em silêncio pelo céu côncavo, surgia a claridade opalescente da Via Láctea, o Caminho de Santiago, como ainda lhe chamávamos na aldeia. Enquanto o sono não chegava, a noite povoava-se com as histórias e os casos que o meu avô ia contando: lendas, aparições, assombros, episódios singulares, mortes antigas, zaragatas de pau e pedra, palavras de antepassados, um incansável rumor de memórias que me mantinha desperto, ao mesmo tempo que suavemente me acalentava. Nunca pude saber se ele se calava quando se apercebia de que eu tinha adormecido, ou se continuava a falar para não deixar em meio a resposta à pergunta que invariavelmente lhe fazia nas pausas mais demoradas que ele calculadamente metia no relato: “E depois?”. Talvez repetisse as histórias para si próprio, quer fosse para não as esquecer, quer fosse para as enriquecer com peripécias novas.

Naquela idade minha e naquele tempo de nós todos, nem será preciso dizer que eu imaginava que o meu avô Jerónimo era senhor de toda a ciência do mundo. Quando, à primeira luz da manhã, o canto dos pássaros me despertava, ele já não estava ali, tinha saído para o campo com os seus animais, deixando-me a dormir. Então levantava-me, dobrava a manta e, descalço (na aldeia andei sempre descalço até aos 14 anos), ainda com palhas agarradas ao cabelo, passava da parte cultivada do quintal para a outra onde se encontravam as pocilgas, ao lado da casa. Minha avó, já a pé antes do meu avô, punha-me na frente uma grande tigela de café com pedaços de pão e perguntava-me se tinha dormido bem. Se eu lhe contava algum mau sonho nascido das histórias do avô, ela sempre me tranqüilizava: “Não faças caso, em sonhos não há firmeza”.

Pensava então que a minha avó, embora fosse também uma mulher muito sábia, não alcançava as alturas do meu avô, esse que, deitado debaixo da figueira, tendo ao lado o neto José, era capaz de pôr o universo em movimento apenas com duas palavras. Foi só muitos anos depois, quando o meu avô já se tinha ido deste mundo e eu era um homem feito, que vim a compreender que a avó, afinal, também acreditava em sonhos. Outra coisa não poderia significar que, estando ela sentada, uma noite, à porta da sua pobre casa, onde então vivia sozinha, a olhar as estrelas maiores e menores por cima da sua cabeça, tivesse dito estas palavras: “O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer”. Não disse medo de morrer, disse pena de morrer, como se a vida de pesado e contínuo trabalho que tinha sido a sua estivesse, naquele momento quase final, a receber a graça de uma suprema e derradeira despedida, a consolação da beleza revelada. Estava sentada à porta de uma casa como não creio que tenha havido alguma outra no mundo porque nela viveu gente capaz de dormir com porcos como se fossem os seus próprios filhos, gente que tinha pena de ir-se da vida só porque o mundo era bonito, gente, e este foi o meu avô Jerónimo, pastor e contador de histórias, que, ao pressentir que a morte o vinha buscar, foi despedir-se das árvores do seu quintal, uma por uma, abraçando-se a elas e chorando porque sabia que não as tornaria a ver.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

.. ainda pensando

Quando penso sobre aquilo que pensava
penso que nao pensava
naquilo que imaginei ter pensado.

E hoje o que penso é que aquilo que pensava
nao foi eu que pensei e,
que se pensei,
foi apenas um pensamento
de quem não pensa no que pensa.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Think about


Penso que se pensasse mais no que penso,
pensaria menos,
porque quando penso no que penso,
penso que era melhor não pensar.

Agora que não posso mais parar de pensar
preciso pensar em como paro de pensar
sobre aquilo que não gostaria de pensar
mas que não consigo mais deixar de fazê-lo.

Pensando bem,
é melhor não parar de pensar
em como faço para não pensar
naquilo que não devo pensar.

Portanto, não consigo parar de pensar
naquilo que devo pensar.


quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Emoção na escuridão

Arte de Franz von Stuck

Se falo nao me escutam,
se escrevo, não me entendem,
então suspiro baixinho no escuro
para que não percebam minha emoção,
a de falar e escrever na escuridão.

Refletindo descontraído sobre este mundão

Photo by autor desconhecido


Hoje parei e refleti sobre o mundo "louco" em que vivemos :


Tem gente chorando, gente sorrindo,
gente morrendo e outros nascendo,
criança, jovem, adulto, velho,
gente rica, gente pobre e sem chinelo,
gente boa, gente má,
aqueles que vão e que nunca mais voltarão,
e outros que não irão nem tentar,
também os que vieram para ficar,
aqueles que teem tudo para serem felizes, e não são,
há aqueles que poderiam ser infelizes, mas não são,
porque sempre estarão em busca de superação,
pois na vida tudo passa e eles também passarão.
E assim, fica aqui o meu recado,
para aqueles que ainda teem um bom coração:

"ser feliz neste mundo, pode não ser fácil, mas nunca desista não !"


segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Krishna



"Hare Krishna Hare Krishna Krishna Krishna Hare Hare Hare Rama Hare RamaRama Rama Hare Hare"


domingo, 5 de julho de 2009

Remando entre mistérios


Photo by JRD

"Nas inacessíveis profundezas do ser
existem mistérios; mistérios profundos,
bem lá no fundo, de um lago profundo,
quieto e sereno, mas nada pequeno,
de natureza semi-torta,
dentro de uma imprevisível possibilidade,
de um lago sereno e calmo
tornar-se um mar extremo,
e, neste exato momento,
eu estar navegando neste lago,

num barco sem remo.”